Ee blog terá, pelo menos duas vezes por semana, as minhas opiniões e comentários sobre desporto – sobretudo automobilismo – e sobre a vida nacional (portuguesa e brasileira) e internacional, com a experiência de 52 anos de jornalismo, 36 anos de promotor e 10 de piloto. Além de textos de convidados, e comentários de leitores.
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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

EUSÉBIO – UM DIA PARA CHORAR E RECORDAR
Hoje é dia de adeus a Eusébio e, sobretudo, de recordações da grande “Pantera Negra” e de saudade por tudo o que ele fez pelo Benfica, futebol doe Portugal e por Portugal, pelo qual ele – é bom que se diga isto – se sacrificou profissionalmente ao ter a sua carreira “encarcerada” por Oliveira Salazar dentro das fronteiras nacionais.

Copa do Mundo de 1966: Portugal 3 - Hungria 1
Mas, Eusébio – e isso é o mais extraordinário na vida dele e na do SLB – teve reconhecimento internacional sem nunca ter jogado por qualquer clube europeu.
Por isso, a sua projeção internacional é tão maior do que a das estrelas internacionais atuais que se podem exibir mais frequentemente em mais jogos internacionais jogando por grandes clubes, equipas de maior competitividade que o Benfica, como todos os benfiquistas hão de certamente concordar.
Copa do Mundo 1966: Portugal 5 - Coreia do Norte 3 - uma das imagens mais famosas de autoria de Nuno Ferrari - depois do primeiro dos seus quatro golos, Eusébio vai buscar a bola dentro da baliza coreana como a afirmar "vamos a isto que, mesmo estando a perder por 1-3, ainda vamos ganhar".
Ele é o primeiro dos maiores. dos maiores jogadores europeus a partir.
Escrevo estas palavras no momento em que o seu corpo dá uma volta de honra no seu Estádio da Luz. Infelizmente, por enquanto, ainda não estou em condições físicas e emocionais para estar presente e juntar-me a todos que lhe prestam esta justa homenagem, uma homenagem que é extra-clubística, já que ele é uma figura mundial.
Eusébio, apoiado pelo selecionador Manuel da Luz Afonso, sai do relvado de Wembley, chorando pela derrota de Portugal na Meia Final da Copa de 1966, em que ele se lesionou. Copy Allsport.
A seleção portuguesa, em 1966: de pé - Alexandre Batista, Jaime Graça, Hilário, Vicente, Morais e José Pereira; ajoelhados - José Augusto, Torres. Eusébio, Coluna e Simões. Copy Nuno Ferrari.
A multidão que acorreu ao Aeroporto da Portela de Sacavém para receber os jogadores da seleção que foi 3ª no VIII Campeonato do Mundo de Futebol, em Inglaterra, 1966.

Aqui deixo algumas fotos publicadas no livro editado pela Talento sobre a História do Futebol e dos Campeonatos do Mundo, e de autoria do meu amigo e colega Nuno Ferrari e de outros grandes fotógrafos internacionais, cujos direitos são reservados..
Salazar condecora a seleção de 1966, tendo à frente Eusébio, que o estadista/ditador não deixou sair de Portugal pelo "significado que tinha a ligação de Portugal às suas "Províncias Ultramarinas".

Estas ainda não são as minhas fotos inéditas que vos prometi que estarão aqui dentro de umas cinco semanas.
Obrigado Eusébio. Até breve. Parte do historial da minha vida, das minhas alegrias, dos meus começos jornalísticos, acabou hoje, com a ida de um dos meus grandes ídolos.

domingo, 5 de janeiro de 2014

EUSÉBIO – MUNDO DO FUTEBOL DE LUTO, MAS RICO DE MEMÓRIAS.
O Benfica, a família benfiquista, o futebol nacional e internacional estão de luto, com a morte, esta madrugada de Eusébio da Silva Ferreira. E, Portugal também. Aliás, a República Portuguesa, por via do jugo de Salazar ficou a dever-lhe uma ainda maior projeção mundial quando em prol da política do futebol “ópio do povo”, lhe cerceou uma carreira internacional ainda muito maior do que ele teve com a camisola da águia.
Nunca fui da “família benfiquista”, como jamais fui de qualquer família clubística. O meu clube é o futebol bem jogado, e de forma limpa, honesta e desportiva. Como aprendi a gostar da modalidade nos meus anos de convivência íntima com o soccer britânico, em que me estreei em jornalismo, na época como correspondente de “A Bola”, em Londres, no início da década de sessenta.
No entanto, pela grande convivência e intimidade que tive com toda a gloriosa equipa do Benfica desses anos de 1961 a 1963, sempre me senti mais próximo dos pupilos de grande Bela Guttmann.  De Costa Pereira a António Simões eram todos especiais. Era um conjunto de jogadores e de homens que o treinador húngaro soube moldar numa equipa em que os “carregadores de piano” menos dotados tecnicamente estavam ao nível dos artistas porque o seu papel era igualmente importante para o conjunto.

O despontar de uma estrela internacional em 1961
Vivi o nascimento de Eusébio para o futebol internacional na temporada de 1961/62. Acompanhei de perto, em Inglaterra, o brotar da popularidade do jovem moçambicano desconhecido para o meio futebolístico britânico. Os meus amigos Brian Scovell e Clive Toye, nessa altura os jornalistas número um no Daily Sketch e no Daily Express, respetivamente, ajudaram muito a criar condições para que o nome de Eusébio fosse cada vez mais exposto nos jornais de Fleet Street.
Éramos – ele e eu – apenas uns miúdos, separados apenas por 10 meses de idade. Como me lembro das cenas que o Brian e eu inventámos para alimentar o tão peculiar estilo editorial de Fleet Street com material – inclusive fotos – que despertasse interesse dos adeptos futebolísticos britânicos nessa época muito mais virados para os seus astros. Estou a referir-me a uma época em que o futebol inglês não tinha jogadores e treinadores estrangeiros, em que a sua realidade não ia além do seu “umbigo” de criadores do jogo, em que era estranhíssimo alguma equipa “ousar” jogar fora do WM ou ver-se, por exemplo, um avançado passar a bola para as suas linhas mais recuadas para manter posse de bola. Eram outros tempos, que tanto se modificaram a partir da década seguinte.

A admiração de Matt Busby
E, foi nesse meio tão exclusivamente virado para as suas entranhas de fundadores em que Eusébio – mais do que em qualquer outro país do mundo – floresceu como uma estrela de brilho invulgar, sob ressaindo rapidamente entre os demais jogadores do Benfica.
Lembro-me – como se fosse hoje – de ouvir de Matt Busby, treinador do Manchester United, sentado ao meu lado no voo de BEA, de Amsterdão a Londres no dia seguinte à conquista do SLB da segunda Taça dos Campeões Europeus a falar-me de Eusébio com tal admiração que os seus olhos brilhavam. Isto, para um dos grandes mestres do futebol inglês e mundial, deixou-me tão orgulhoso quanto surpreso pois nesse dia, Eusébio tinha apenas 20 anos. Era um garoto que se dirigia com todo o respeito aos seus colegas mais velhos, como ao “Sr. Coluna”.
No ano seguinte, no Estádio da Luz vivenciei a admiração de Pélé pelo seu adversário do Benfica e a disponibilidade que mostrou quando lhe pedi para fazermos uma série de fotos para a imprensa inglesa para a qual tinha vindo cobrir o jogo para a Taça Intercontinental que o Santos ganhou por 5-3, se a memória não me falha.
Infelizmente só daqui a umas poucas semanas – quando finalmente puser ordem no meu arquivo fotográfico e o digitalizar todo – poderei partilhar convosco essas tantas fotos de Eusébio dessa época. Mas, aqui fica, desse já a promessa que o farei, sobretudo como homenagem minha a essa enorme figura de atleta que o Portugal salazarista não deixou brilhar ainda mais alto no estrangeiro e com, isso desfrutar mais do que o seu talento poderia render-lhe economicamente. Esperem por fotos minhas, do jovem Eusébio, inusitadas e inéditas, nas próximas semanas. Muitas delas publicadas na imprensa inglesa.
Com a minha ida para o Brasil em 1976, e o meu regresso apenas em 1988, pouco ou nada mais convivemos. A não ser uns breves encontros para discutir a possibilidade da minha editora de então publicar a sua biografia, o que não se efetivou por falte de vontade dele. O que lamento. Sobretudo pela oportunidade que teríamos tido – os dois – de reviver intensamente os momentos comuns do início dos anos sessenta.
Aqui fica a minha saudade e a minha profunda admiração por ele, e pelo seu estatuto que o S.L. e Benfica, em primeiro lugar, e a FPF, em segundo, souberam preservar e enaltecer.