Ee blog terá, pelo menos duas vezes por semana, as minhas opiniões e comentários sobre desporto – sobretudo automobilismo – e sobre a vida nacional (portuguesa e brasileira) e internacional, com a experiência de 52 anos de jornalismo, 36 anos de promotor e 10 de piloto. Além de textos de convidados, e comentários de leitores.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

FÓRMULA 1: 4º DIA (ÚLTIMO) DE TESTES EM JEREZ - RESULTADOS


1FELIPE MASSABRAWILLIAMS MERCEDES1:28.229 86
2FERNANDO ALONSOESPFERRARI1:29.145+0.916115
3DANIEL JUNCADELLAESPFORCE INDIA MERCEDES1:29.457+1.22881
4LEWIS HAMILTONINGMERCEDES1:30.822+2.593110
5KEVIN MAGNUSSENDINMcLAREN MERCEDES1:31.806+3.57741
6JULES BIANCHIFRAMARUSSIA FERRARI1:32.222+3.99325
7ADRIAN SUTILALESAUBER FERRARI1:36.571+8.34269
8NICO ROSBERGALEMERCEDES1:36.951+8.72291
9KAMUI KOBAYASHIJAPCATERHAM RENAULT1:43.193+14.96454
10DANIIL KVYATRUSTORO ROSSO RENAULT1:44.016+15.7879
11DANIEL RICCIARDOAUSRED BULL RENAULT1:45.374+17.1457
       
RECAYRTON SENNABRAMcLAREN HONDA MP4-5B1:18.38730/09/1990 
MVHEINZ-HARALD FRENTZENALEWILLIAMS RENAULT FW191:23.13526/10/1997 
       
 Condições do tempo CHUVA DEPOIS NUBLADO  
FÓRMULA 1: TESTES DE JEREZ, DIA 3
Não posso deixar de reproduzir o texto do meu amigo Flávio Gomes, que é uma delícia, como de costume, pela qualidade e, sobretudo, pela forma sarcaz com que sempre comenta tudo.

SÃO PAULO (esquisito) – Alguém há de dizer que a grande atração de hoje em Jerez seria Alonso andando com o novo carro. Ou então as apostas sobre em qual volta a Red Bull iria quebrar. Ou até a apresentação da Marussia. Mas, para mim, novidade mesmo seria ver Massa num carro sem motor Ferrari e pintado de outra cor que não o vermelho, que ele trajou nos últimos oito anos.
Achei escuro. Escuro o azul, escura a foto. Tem de ver isso aí. Se bem que gosto desse azulão. Que, insisto, não é a pintura definitiva da Williams — que terá a Martini como principal patrocinadora, segundo o Américo Teixeira Jr.; se vier Campari, vamos reclamar.


E como para mim a atração do dia era ver Massa na Williams, informo que o brasileiro completou 47 voltas, achou todos muito gentis e “emocionante” a experiência de andar com um carro novo. E também com um motor alemão, em vez de italiano — mesmo na Sauber, Massa só sabia, até hoje, o que era acelerar motores Ferrari na categoria. Sobre as exigências do novo regulamento, “precisa entender como dirigir com esse motor, esse chassi, esses pneus e o turbo, mas é divertido”.
Bom, se precisa entender tudo isso, pode ser qualquer coisa, menos divertido. Deve, mesmo, ser trabalhoso. Piloto, neste ano, vai fazer alguma diferença, podem crer — os caras estão tendo de reaprender a dirigir.
E confiabilidade, também. O carro terá de ser confiável, especialmente no começo da temporada. Tipo aquele amigo para quem você pode contar seus piores segredos, sabendo que ele não vai te entregar. E nem todo carro é assim. Tem alguns que te sacaneiam com fios de cabelo e perfumes indesejáveis, se é que me entendem.
Mas vamos em frente, sem deixar de registrar que Massa ficou em segundo hoje, 1min23s700, contra 1min23s276 de Kevin Magnussen, da McLaren, o mais rápido do dia. Estreante e igualmente emocionado, o jovem dinamarquês. “Não consegui dormir e parecia que tinha borboletas no estômago”, declarou o imberbe.
Aqui, uma observação. De onde vem essa expressão idiota “borboletas no estômago”? Que sensação é exatamente essa, de ter borboletas no estômago? Alguém já engoliu borboletas vivas, várias, para dizer o que acontece quando elas começam a bater asas no estômago? E que borboletas sobrenaturais são essas que não morrem esmagadas pela laringe, epiglote e traqueia? E se ainda assim chegarem voando ao estômago, como alguém imagina que elas resistirão aos sucos gástricos que derretem até picles do Big Mac?
Bem, com borboletas ou sem elas, o rapaz fez o melhor tempo da quinta-feira depois de 52 voltas. E foram mais 40 com Button, pela manhã, uma marca significativa para o carro que, no primeiro dia, nem saiu dos boxes. Ponto para a Mercedes, que pelo jeito larga na frente no quesito motores-turbo-com-sistema-incompreensível-de-recuperação-de-energia. Unidades de força. Power units. É como vão ser chamados os motores este ano. Tucanaram os motores.
Falando nela, a Mercedes, Hamilton saiu de Jerez feliz da vida com suas 62 voltas, todas elas com a asa dianteira no lugar. Fez o terceiro tempo do dia e só parou quando um problema de transmissão fez com que parasse. Paddy Lowe, o relógio de ponto da equipe, informou que Lewis saiu dos boxes, de manhã, “alguns minutos” depois que a pista foi liberada; e “pontualmente às 14h30 depois do almoço”. É um Big Ben ambulante, o Coelho da Alice.
Alonso teve o primeiro gostinho com a F14 T na Ferrari, conseguiu completar 58 voltas (perdeu a telemetria no início e o time mandou parar o carro) e se disse emocionado por “poder pilotar de novo diante da minha torcida”. Olha, não sei se tinha muita gente em Jerez. Em todo caso, é possível mesmo que quem estivesse lá torcesse por Alonso. “Temos potencial para progredir e isso é encorajador”, falou o asturiano. Tradução: “Não andou nada, mas me juraram não é tão ruim assim”.
A turma da Renault viveu mais um dia daqueles. Vergne conseguiu dar 30 voltas com a Toro Rosso e se disse aliviado por notar que a “unidade de força” funcionou. De novo, acostumem-se. Vai ter muito “power unit” sendo dito neste ano, para descrever motor + ERS, o sistema de recuperação de energia que substitui (na verdade, sofistica e complica) o KERS, apesar de ter uma letra a menos. Ricciardo, coitado, conseguiu dar míseras três voltas, nenhuma delas cronometrada, e a Red Bull teve “os mesmos problemas de ontem”, segundo o engenheiro Andy Damerum — que sempre que vai a um bar pede um Montilla Ouro sem jamais se dirigir ao barman com frases que comecem por pronome.
Legal a Red Bull começar o ano tropeçando. Significa que as outras equipes têm chance de batê-la, neste ano. Ou, ao menos, de dar trabalho. Ninguém gosta de domínios tão absolutos como o de Vettel em 2013. A gente quer competição, não desfile.
Sauber, agora. Primeiro dia de Sutil na nova equipe e algum trabalho para os mecânicos que vão virar a noite consertando o carro. Adrian bateu. Antes, completou 34 voltas. Achou o novo motor forte, “com muito mais torque e silencioso”. Silencioso? OK, não é como antes, mas não força, moço. Outra constatação de Sutil: “O pneu duro é muito duro”. Ao seu lado, um técnico da Pirelli rabiscou num papelzinho: “Não diga”. E olha só: o alemão falou que a principal dificuldade foi com o “brake-by-wire system”. Começam a surgir pistas sobre esses freios diferentes, sobre os quais Button já havia comentado ontem. Tem caroço nesse angu. Com freio não se brinca. Depois eu explico do que se trata.
A Force India andou pouco com Hülkenberg, apenas 17 voltas. Quem estava em Jerez notou que o alemão não deu as costas para o bico do carro em momento algum. Caterham e Marussia também rodaram pouco e nem fecharam voltas cronometradas. Chilton achou que foi muito. “Cinco voltas significam muito mais do que vocês pensam!”, bradou para três caras diante dos boxes que ele achava que eram repórteres, mas na verdade eram do serviço de limpeza.
Os testes de Jerez terminam amanhã. Se não chover, a Pirelli vai molhar a pista de novo com Maldonado ao volante do trator-pipa. Se o venezuelano não aparecer, Grosjean está de sobreaviso.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014



MICHAEL SCHUMACHER: NOVA ESPERANÇA?
Jornal "L'EQUIPE" PUBLICA NOVO FURO SOBRE SAÍDA GRADUAL DO COMA".
Mais uma vez com a devida vénia, publico notícia acabada de dar no site do meu amigo, o competente jornalista brasileiro Américo Teixeira Jr:
Por Americo Teixeira Jr. – Novamente notícias sobre o estado de saúde de Michael Schumacher se espalham pelo mundo todo. Dessa vez a fonte é o jornal francês L’Equipe, informando que os médicos iniciaram uma diminuição gradual dos medicamentos, de modo a tirá-lo muito lentamente do coma induzido. O acidente de esqui que vitimou o ex-piloto da Ferrari completa hoje um mês. O trabalho de investigação do periódico ajudou a furar, mais um vez, o bloqueio de informações que cerca o heptacampeão, que só faz ampliar o rumores sobre o mais vencedor da história da Fórmula 1.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014


O GRANDE FUTURO DE STANISLAS WRAWINKA

Depois deste demasiado prolongado interregno (de duas semanas) nas minhas habituais crónicas – que também utilizei para por um pouco em ordem a minha coleção de slides de Ayrton Senna que já estão a ser digitalizados para os partilhar convosco num lote de mais de 5.000 fotos, inclusive de outros fotojornalistas e mesmo de alguns amadores – retomo a regularidade destes meus comentários. E, apesar da extraordinária vitória de João Barbosa nas “24 Horas Rolex de Daytona”, de realçar a todos os níveis, sobretudo pela competitividade da corrida deste ano, retomo o mesmo tema com que comecei este blog a 10 de setembro último: ténis. Nessa minha primeira crónica escrevia: “Neste US Open pode prever-se o grande futuro do suíço Stanislas Wawrinka…”
Neste fim de semana assistimos uma das mais históricas finais de um Grand Slam – o KIA Australian Open, em Melbourne – entre o número um mundial Rafael Nadal e o suíco. Este encontro foi estatisticamente histórico por vários motivos:

- Depois de 26 sets consecutivos ganhos por Nadal a Wrawinka, este ganhou-lhe um set pela primeira vez – e logo o primeiro.

- Foi a primeira vez – em 13 encontros - que o suíço ganhou ao espanhol.

- Por coincidência, o novo treinador de Wawrinka – Magnus Morgan, que tem melhorado bastante o jogo e sobretudo o comportamento psicológico do suíço – também só à 13ª vez conseguira ganhar a outro número 1 mundial – Roger Federer.

- Foi a primeira vez que o mesmo tenista conseguiu no mesmo torneio ganhar aos dois primeiros do ranking mundial (Wawrinka eliminara Novak Djokovic nas meias finais).

- Quem entregou os prémios deste memorável final foi também Pete Sampras no 20º aniversário da sua vitória neste torneio.

- Pela primeira vez, Roger Federer deixa de ser o número 1 suíço, já que, agora, Wrawinka passa a 3º do ranking mundial e Federer a 8º.

 

Dúvida que persistirá: Sem lesão, teria Nadal perdido?

Claro que os muitos fãs de “Rafa” dirão sempre que ele só perdeu esta final porque uma lesão nas costas que o afastou do court pelos regulamentares seis minutos para atendimento médico no final do 3º jogo do 2º set (2-1 para Wrawinka) e que lhe causou bastante sofrimento durante o resto do encontro. Bastou ver os lentos primeiros serviços do espanhol (jamais acima de 160km/h, enquanto Wrawrinka fez 19 azes contra apenas um de “Rafa”) depois da lesão e olhar para o seu rosto para ver que jogou em sofrimento e bastante diminuído. Mesmo assim ainda ganhou um set (o 3º) ao seu amigo com quem costuma treinar.

Entendo que Nadal perdeu esta final com os erros cometidos no 7º jogo do primeiro set quando – a perder por 4-2 – desperdiçou três “break points” com Wrawrinka a servir. Se tivesse ganho esse jogo iria servir com uma desvantagem de apenas 4-3 e toda a história do jogo poderia ter sido outra, lesão ou não lesão. Até porque o suíço cometeu a maior parte dos seus erros justamente quando Nadal estava inferiorizado, e, por isso, perdeu o 3º set.

No entanto, não pode haver dúvidas de que Wrawrinka não só “entrou a matar” nesta final usando bem a vantagem de começar o encontro a servir, como teve uma exibição sensacional, mostrando maior maturidade e um potencial enorme, mesmo muito grande, a ponto de eu – sem seguir de perto os meandros do ATP – atrever-me a prognosticar que este jovem de 28 anos com um corpo que ninguém poderá dizer ser de um atleta de alta competição, é um potencial número um mundial, caso Nadal e Djokovic, “se distraiam” ou tenham algum problema.

Como dizia – e muito bem – um dos competentes e conhecedores comentadores do Eurosport, a sua esquerda a uma mão não só é a melhor de todos os tempos, como, digo eu agora, pode por em causa o “back hand” a duas mãos, embora esta seja preferivelmente adotada atualmente para todos os jovens iniciantes. A certeza, a rapidez das suas esquerdas cruzadas são únicas no ténis mundial. Segundo o comentador Eurosport, isso também se deve à sua pega muito fechada.

Com desfecho inesperado (3-1) para Wrawrinka, esta foi uma final para não esquecer durante muito tempo. Um grande espetáculo graças à tenacidade, à garra de Nadal na sua decisão de não abandonar o encontro, ganhar o 3º set e manter-se até final com bastante sacrifício que se viu nas suas lágrimas.

Só lamentei que a organização de Melbourne não se tivesse lembrado de pedir ao grande, ao enorme, Rod Laver – de quem este court principal tomou o nome, Rod Laver Arena – de também estar junto aos que entregaram os troféus a estes dois novos gigantes do ténis mundial. Ainda me lembro bem das suas vitórias em Wimbledon que cobri, então como correspondente de “A Bola” em Londres, e me fascinaram a ponto de o considerar ainda o “Melhor Tenista de Todos os Tempos”, mesmo considerando o tão diferente ritmo e velocidade do ténis atual.

Este australiano de 75 anos é ainda o único a ganhar todos os torneiros do Grand Slam em dois anos consecutivos, e, caso, como aconteceu com Ken Rosewall, não tivesse sido impedido de jogar em Grand Slams de 1963 a 1967 por ser profissional (nessa época os grandes torneios eram reservados a amadores). Esta proibição foi retirada em 1969, quando se iniciou a “Era Open”.

Um realce final para o árbitro português desta final – Carlos Ramos, que soube “domar” com serenidade e tato o momento nervoso de Wawrinka quando Nadal saiu do court para tratamento médico. Depois de ter sido o “chair umpire” das finais dos Jogos Olímpicos e de Wimbledon este é mais um português de quem nos devemos orgulhar.

 

Próximas crónicas em continuação de temas suspensos

Sei que estou em falta para convosco em, pelo menos a continuação dos seguintes temas:

- 10 anos de Historic Festivals em Portugal (publicados apenas os dois primeiros “capítulos” dos prováveis cinco, ou mesmo seis).

- Os salários milionários dos desportistas, e, agora, os meus comentários sobre a excelente série de três reportagens – “Fora de Jogo” – e respetivos debates, a respeito das dificuldades económicas de muitos jogadores de futebol após o seu abandono dos relvados.

- Fotos inéditas de Eusébio (e Pelé) feitas por mim em Inglaterra nos anos sessenta.

domingo, 12 de janeiro de 2014


O ACIDENTE DE MICHAEL SCHUMACHER:

A DEPENDÊNCIA DOS ORGÃOS DE COMUNICAÇÃO.

Ao ler este post do meu amigo de longa data, o ex-piloto brasileiro, jornalista de rádio e já há alguns anos promotor de eventos de desportos motorizados, JAN BALDER, não posso deixar de o reproduzir, tal é a sensatez e propriedade com que ele escreve sobre este tema que é transversal a muitos momentos jornalísticos em todo o mundo.

Trata-se, no fundo, daquilo que eu escrevi há dias – a avidez, a pressa, de dar – a todo o custo, sobretudo, esquecendo a verdade e a pesquisa jornalística – qualquer notícia, algo primeiro que os outros. A confusão que muitos jornalistas e, sobretudo, muitos editores, fazem sobre o que é mais valioso – o “furo”, a “caxa”, ou a veracidade completa da notícia, do comentário.

Tudo isto se ensina no mais básico dos princípios do jornalismo. Tudo isto está no maravilhoso artigo de Francisco Pinto Balsemão – fundador do Expresso – na revista da semana passada e que é, penso eu, uma grande aula de jornalismo e de posicionamento do pepel dos Orgãos de Comunicação Social e dos seus profissionais tanto na sociedade quanto no relacionamento que os governos devem ter com eles.

Aqui fica, portanto, o texto de Jan Balder na íntegra:

 

A fragilidade da imprensa
O ex-piloto de Fórmula 1 Michael Schumacher não é o herói que a imprensa pintou na última semana. Ele se encontra hospitalizado em estado grave, após sofrer um acidente na estância de esqui de Méribel, nos Alpes Franceses, porque resolveu sair da pista regular e descer por uma área não delimitada, acabando por cair e bater a cabeça em uma pedra.
Nos últimos dias, os jornais e os noticiários do rádio e da televisão repetiram seguidamente que o ex-campeão de automobilismo se acidentou ao tentar socorrer a filha de um amigo, que teria sofrido uma queda. Na quinta-feira (9/1), os jornais brasileiros reproduzem informações de autoridades francesas que investigam o acidente e contam outra versão, com base nas imagens gravadas por uma câmera acoplada ao capacete de Schumaker: ele saiu da pista oficial porque quis, e não há registro de nenhuma outra pessoa na área onde se acidentou.
A história mentirosa foi passada aos jornalistas pela assessora de imprensa do ex-piloto, Sabine Kehm, e comprada pelo valor de face por agências internacionais de informações, emissoras de televisão, jornais e revistas de todo o mundo.
O episódio coloca duas questões interessantes para a análise da mídia. A primeira é a preocupante ascendência de assessores de comunicação sobre a imprensa. A segunda é ainda mais instigante e se refere ao processo avassalador de espetacularização das notícias: no universo hipermediado, a disputa por imagens e dados cada vez mais chocantes produz um contexto no qual a verdade perde espaço para as versões mais eletrizantes.
Nesse caso, qual seria o valor real da informação mediada pela imprensa?
Com a redução do tempo para processamento das informações, somada à necessidade de decidir rapidamente sobre o que é e o que não é notícia, a mídia se coloca num campo tão inseguro quanto o local escolhido por Schumacher para deslizar em cima de um par de pranchas.
Na disputa pela primazia de “furar” a concorrência, os editores optam por divulgar como verdadeiro tudo de interessante que lhes chega às mãos. No caso da história supostamente inventada pela assessoria do ex-piloto de corrida, não havia muito como checar a veracidade da informação, uma vez que Schumacher segue em estado de coma e os repórteres postados em frente ao hospital têm que ser criativos para cumprir suas cotas de relatos diariamente.
Imprensa manipulada
Segundo reportagem distribuída pela Associated Press (ver aqui, em inglês), especialistas afirmam que muitos atletas profissionais e amadores, com câmeras acopladas em seus equipamentos, tendem a priorizar as imagens de seu próprio desempenho, em detrimento da segurança.
Michael Schumacher não é um herói da compaixão e da solidariedade: é um esportista extremamente egoísta e competitivo, viciado em adrenalina, que depois de se aposentar no automobilismo seguiu arriscando a vida em esportes radicais. A câmera em seu capacete foi provavelmente uma das causas de seu acidente.
Não há como ignorar que o episódio revela mais uma vez a fragilidade do sistema da imprensa. Se é possível enganar praticamente toda a mídia do mundo com uma história que seria desmentida com a revelação das imagens gravadas pelo próprio Schumacher, o que não devem estar fazendo as poderosas agências de relações públicas, muitas das quais são associadas a grupos de publicidade, para moldar na opinião do público a reputação de empresas, celebridades, investidores, políticos e bancos?
Aqui no Brasil, onde as redações encolhem e diminui progressivamente a capacidade do sistema da mídia de captar e processar notícias, a maioria dos veículos depende cada vez mais das pautas criadas por assessores de comunicação. No caso do noticiário político, por exemplo, não há como acreditar em critérios objetivos da imprensa ao processar os produtos dos marqueteiros, uma vez que as disputas eleitorais invadiram o cotidiano do jornalismo e se transformaram em pauta permanente. A mesma coisa se pode afirmar do noticiário econômico, claramente atrelado aos interesses político-partidários e condicionado pelos dogmas do mercado.
A imprensa é refém de suas fontes, em parte porque não tem mais capacidade, com seu sistema vertical e linear de processamento, de captar e dar um significado à complexidade da vida contemporânea; em parte, porque também aderiu ao espetáculo mediático, no qual o jornalismo se mistura a todo tipo de interesse particular ou setorial.
O jornalismo tradicional está descendo a ladeira, com uma câmera no capacete.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


O ACIDENTE DE MICHAEL SCHUMACHER - UM DESASTRE DE COMUNICAÇÃO

Ainda ontem comentava a ansiedade natural, mas estúpida (por haver que esperar sempre pelo menos duas semanas em casos semelhantes para se saber algo de mais concreto) do público0 em geral e da imprensa. Mas muito pior que os meios de comunicação que, como é natural, mantêm um exército à porta do hospital de Grenoble, para não falharem qualquer notícia de última hora, muito o pior que tudo isso é o descalabro na comunicação da assessoria do piloto e do hospital.

É de “bradar aos céus” os erros que hoje em dia se cometem em termos de comunicação, seja institucional, seja governamental (o governo português tem sido exemplo disso demasiado frequentemente), quanto a nível comercial e publicitário.

Por isso tomo a liberdade de transcrever o que o meu amigo e colega jornalista brasileiro Américo Teixeira Jr escreve no seu site, com toda a razão e propriedade:

 

Enquanto é um desastre a comunicação oficial em torno do acidente de Schumacher, seu staff reclama de apurações independentes

Por Americo Teixeira Jr. – O cara tem fama mundial, sofreu um grave acidente e existe uma expectativa enorme por informações sobre o seu estado de saúde. Junta-se a isso um hospital que não emite boletins e uma assessoria de imprensa que não consegue dizer nem quando será o próximo informe. Esses são os ingredientes para o desastre em que se transformou a comunicação sobre o acidente de Michael Schumacher.

É muito fácil dizer para os jornalistas, defronte ao hospital em Genoble, que só haverá novos comunicados se houver alteração no caso clínico do ídolo mundial. É óbvio que essa é a senha para que cada um apure por seus próprios meios, afinal, jornalismo significa correr atrás da informação.

Quanto maior a omissão de informação, maior a chance de boatos se espalharem. Bastaria um encontro oficial diário, bastaria administrar a crise com transparência. Não, criaram um bloco de concreto diante do caso e condenam tudo o que não é via oficial.

Jornalismo se faz com apuração, pesquisa, responsabilidade e inteligência. O fato de um desequilibrado resolver se vestir de padre não é motivo para o staff de Schumacher considerar que toda aquela gente de imprensa na porta do hospital está ali para aprontar alguma coisa.

Idiota tem em qualquer lugar, inclusive na imprensa. Mas é só separar os responsáveis dos irresponsáveis que a coisa segue seu curso com a melhor qualidade e maior tranquilidade. Respeitar o momento delicado, sim; condenar os irresponsáveis, sim; afastar a imprensa da notícia, não, nunca, jamais.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

EUSÉBIO – HOMENAGEM INOLVIDÁVEL NA LUZ E POR TODA LISBOA (e MUNDO)
Foi emocionante ver o sentimento de tantos portugueses, independentemente da cor clubística, prestarem a sua última homenagem à "Pérola Negra" como um dia do outono de 1960 um amigo brasileiro de Bela Guttmann lhe contou existir em Lourenço Marques. A ida do carro com o corpo de Eusébio ao edifício da Câmara de Lisboa para uma cerimónia que não teve nada de ... nada, nem mesmo a bandeira de Portugal "porque o mastro se partiu". Terá sido apenas para Luis Felipe Vieira ser fotografado a abraçar António Costa?... 

Só valeu - ksso sim - pelo percurso ao longo do qual os lisboetas puderam aplaudir o seu ídolo num espetáculo comovente e que me encheu de lágrimas e de inveja de não estar ali. Mas, o cortejo fúnebre teria ficado mais solene e de acordo com o prestígio de Eusébio se tivesse sido escoltado, por exemplo, pela cavalaria da GNR que normalmente acompanha os eventos mais formais de figuras de Estado.

Eusébio para o panteão
E, convenhamos, hoje, Eusébio é a figura de Estado que o povo português mais chorou e venerou. A merecer um lugar ao lado de Amália Rodrigues no Panteão Nacional, mesmo que isso custe, como a Sra Presidente da Assembleia Nacional afirmou - com muito mau gosto - que irá custar demasiado...
Será que é muito caro dar a Eusébio o lugar que ele merece?
Se for preciso, estou certo que o povo pagará!!! Pelo menos estará a pagar por algo que sabe para que é e que é merecido...

A Guerra parava ...
Não se esqueçam que durante muitos anos - de 1961 a abril de 1974 - Portugal era conhecido no estrangeiro por pouco mais do que os aspetos negativos da ditadura e da guerra colonial e, pelo lado positivo, por Eusébio, mais até do que pelo Benfica. Isso merece um lugar no Panteão. Mesmo que custe "muito dinheiro". Haja bom senso e sentido de Estado, de retribuição para quem tanto representou e representa para o povo português e moçambicano ... e tantas alegrias lhes deu.

Ainda me lembro de, em 1966, estar no exército, em Moçambique, e - como membros de ambos os lados da guerra colonial ainda hoje recordam - a guerra parar, literalmente parar, bem à moda da "guerra"de Raul Solnado, para ouvir no rádio as transmissões dos jogos dos "Magriços" no Campeonato do Mundo de Futebol, em Inglaterra. Para ouvirem as jogadas e os golos de ... Eusébio.